quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Reencarnação na Bíblia?

Gostaria de obter alguns esclarecimentos a respeito de duas passagens bíblicas que podem causar interpretações duvidosas. São elas: Jó 1:21 – Sei que um verso bíblico não é suficiente para se estabelecer uma doutrina, mas confesso que esta passagem me deixou intrigado. Li em determinado livro que este verso defende a reencarnação. A expressão de Jó “nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá”, parece indicar que o patriarca admitia a reencarnação. Como este texto é tratado em outras versões e por que o verso foi traduzido dessa forma? O que Jó quis realmente afirmar com esta declaração? João 9:2 – Este versículo envolve o mesmo problema abordado acima. Os discípulos de Cristo criam em alguma forma de reencarnação? A pergunta que fizeram ao Mestre “Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” parece indicar que sim. Como o cego poderia pecar antes de seu nascimento? Agradeceria obter uma resposta esclarecedora. Obrigado pela atenção! – A.

Prezado A., realmente é importante tornar claras todas as passagens bíblicas que apresentem aparentes contradições, deixando que a própria Bíblia, com textos mais claros, esclareça aqueles textos tidos como mais difíceis.

Talvez seja útil, antes de comentar diretamente os versículos a que você se refere, revermos o que as Escrituras ensinam a respeito da morte. As considerações a seguir foram extraídas de meu livreto Esperança para Você, impresso pela Casa Publicadora Brasileira:



“A morte é uma realidade sobre a qual se evita pensar. Tenta-se adiá-la o máximo possível através da ciência médica, mas o que se tem conseguido são poucos anos de vida a mais. Por ser ‘invencível’, a morte desperta muitas dúvidas: O que acontece com os que morrem? Aonde vão? Por que tem gente dizendo por aí que os espíritos dos mortos andam soltos? Isso é verdade?

“Platão, o filósofo grego, ensinava que a ‘alma reside no corpo, como numa prisão de que se vê livre na morte’. Alguns crêem que o homem tem uma alma que lhe sai por ocasião da morte, indo para o Céu ou para o inferno. Outros ensinam que a alma vai ao purgatório expiar suas faltas. Outros ainda dizem que há ‘evolução do espírito’. Portanto, a maior parte das pessoas acreditam que o homem tem dentro de si uma alma e um espírito que, desencarnados, vão para algum lugar. Mas, afinal, qual é a verdade? Para entender o que ocorre com o homem na morte, é preciso que se entenda o que é o homem. Qual a natureza humana.

“Quando Deus criou Adão, utilizou-Se de dois elementos: o pó da terra e o fôlego de vida. E, conforme relata Gênesis (capítulo 2, verso 7) o homem ‘tornou-se alma vivente’. Não diz ali que o homem recebeu uma alma, mas sim que o homem tornou-se uma alma.

“Assim como a lâmpada não tem luz por si só, mas produz luz quando está em conexão com a energia elétrica, e ao mesmo tempo a energia elétrica sozinha não ilumina a menos que esteja conectada com a lâmpada, o pó da terra, sozinho, não tem consciência. É simplesmente pó. O fôlego, ou sopro de vida, igualmente, não subsiste por si só. É simplesmente fôlego. A consciência e a vida são, portanto, o resultado da harmoniosa relação entre o corpo e o sopro ou fôlego de vida que Deus concedeu ao homem.

“A morte, portanto, é o oposto da vida. Veja o que diz o livro de Eclesiastes, no capítulo 12, verso 7: ‘E o pó volte para a terra como era, e o espírito [fôlego] volte a Deus que o deu’ – Almeida.

“Resumindo: Pó da terra + fôlego de vida = alma vivente. Tira-se um dos elementos e a alma vivente deixa de existir.

É a alma imortal? – Antes de Adão e Eva se desviarem da estrita obediência a Deus, Ele lhes havia feito a seguinte advertência: ‘No dia em que você a comer [da árvore da ciência do bem e do mal], certamente morrerá’ (Gênesis 2:17). Mas Satanás introduziu uma mentira que dura até hoje. Disse ele: ‘Vocês não morrerão coisa nenhuma!’ (Gênesis 3:4).

“Antes de mais nada, é preciso que se entenda que a palavra alma, em hebraico, é nephesh. E essa palavra significa apenas ser vivente. Há um texto bíblico, escrito pelo profeta Ezequiel, que deixa mais clara ainda esta questão sobre a alma ser ou não imortal: ‘...a alma que pecar, esta morrerá’ (Ezequiel 18:4 – Almeida). Existe algum ser humano que não peca? Logo, todos são mortais.

“’A alma não possui existência consciente à parte do corpo, e em parte alguma a Escritura indica que por ocasião da morte a alma sobrevive como entidade consciente. Efetivamente, ‘a alma que pecar, essa morrerá’. Eze. 18:20’ (Nisto Cremos, pág. 458).

“Paulo encerra o assunto quando diz que só Deus é imortal (I Timóteo 6:15 e 16). Paulo mesmo não cria que ao morrer iria imediatamente ao Céu. Ele também esperava ressuscitar somente na segunda vinda de Cristo (ver Filipenses 3:11 e II Timóteo 4:8). E disse mais: ‘E quando isso que é mortal se revestir de imortalidade...’ (I Coríntios 15:54). Você compreende? Se a alma já é imortal, qual a necessidade de se revestir de imortalidade? Somente crendo em Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida, o ser humano terá a vida eterna.

Comunicação com os mortos – Alguém pode perguntar: ‘Se a alma não é imortal e, quando morremos, aguardamos pela ressurreição na vinda de Cristo, então é impossível haver comunicação com os mortos?’ Exato. É o que diz a Palavra de Deus: ‘Os vivos sabem que vão morrer, mas os mortos não sabem nada. Eles não vão receber mais nada e estão completamente esquecidos. Os seus amores, os seus ódios, as suas paixões, tudo isso morreu com eles. Nunca mais tomarão parte naquilo que acontece neste mundo’, pois, na sepultura, ‘não se faz nada, e ali não existe pensamento, conhecimento nem sabedoria’ (Eclesiastes 9:5, 6 e 10; Salmo 146:4).

“Por isso, se você quer dizer algo, entregar uma flor ou fazer o bem a alguém, faça-o agora, pois ‘no seol [sepultura], para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma’ (Eclesiastes 9:10).

Morte = Sono – Quando Lázaro morreu, Jesus disse para Seus discípulos que iria despertá-lo do sono. Eles acharam aquilo estranho, pois não entenderam o que Cristo dissera. Foi somente quando viram o morto (que já estava em estado de decomposição) sair da tumba, vivo, que entenderam aquelas palavras do Mestre (ver João 11:11-15). E é interessante notar, também, que, ao sair do sepulcro, Lázaro nada disse sobre alguma ‘experiência’ após a morte. Ele simplesmente acordou.

“Agora pense bem: se Lázaro estivesse no Céu (lugar para onde iriam os mortos, imediatamente após a morte, como crêem alguns), não seria uma grande injustiça da parte de Jesus chamá-lo de volta a esta triste vida, sujeito às doenças e, novamente, à morte? Não, Jesus não faria isso com Lázaro, nem com ninguém. Lázaro estava dormindo, inconsciente, como ficam todos os que morrem.

“Mas se os que morrem ficam inconscientes, não podem participar deste mundo e só voltarão à vida quando Cristo retornar, quem são os que aparecem por aí, dizendo ser espíritos desencarnados? De uma coisa jamais podemos nos esquecer: Satanás é um inimigo astuto e laborioso. Ele pode ‘se transformar e parecer um anjo de luz!’ (II Coríntios 11:14). Essas supostas ‘almas dos mortos’ são, na verdade, ‘espíritos de demônios, que fazem milagres’ (Apocalipse 16:14). A Bíblia, inclusive, reage contra a consulta aos mortos, condenando essa prática. Basta ler passagens como Deuteronômio 18:10-14; Isaías 8:19 e I Timóteo 4:1, para confirmar.

“O ser humano pode ter a vida eterna unicamente através de Cristo que é o ‘Caminho, a Verdade e a Vida’. Uma vez ‘dormindo’, só poderá ressuscitar ao chamado de Jesus, em Sua segunda vinda, assim como os que estiverem vivos, por ocasião desse acontecimento, serão transformados (ver I Coríntios 15:51 e 52) e juntos com os que estavam mortos – não antes, nem depois – subirão para se encontrarem com Deus (ver I Tessalonicenses 4:13-17).

“Você percebe a astúcia do inimigo? Ele quer fazer com que os seres humanos creiam que a imortalidade lhes é um dom inerente. Assim, ninguém precisa se preparar para a vinda de Cristo. O que Satanás prega é que todos são imortais. De um jeito ou de outro, a vida continuará. É a velha mentira: ‘Vocês não morrerão!’

“Lembre-se do que disse Jesus: ‘Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em Mim, ainda que morra, viverá’ (João 11:25). Satanás não quer que as pessoas creiam em Jesus. Por isso inventa todo tipo de falsas ideologias que, no fundo, servem para afastar-nos de Cristo e eliminar nossa dependência dEle.

E a reencarnação? – A Bíblia é bem clara quando diz que ‘cada pessoa tem de morrer uma vez só e depois ser julgada por Deus’ (Hebreus 9:27). É verdade que muitos dos que crêem na reencarnação se dizem cristãos (e há muitos sinceros entre eles). Mas o verdadeiro cristão é aquele que aceita a Cristo como Salvador. Alguns dizem que, através de reencarnações sucessivas, cada pessoa pode ‘pagar’ pelas culpas da vida anterior. É uma espécie de auto-redenção. Para essas pessoas, o que fez Cristo na cruz? Para que teria Ele morrido pelos pecados de quem é capaz de salvar a si mesmo? Cristianismo e reencarnação, por mais que se deseje, são inconciliáveis.

“O caminho para a vida eterna é único: examine as Escrituras, pois elas testificam de Cristo, que é a vida eterna (João 5:39). E Ele diz: ‘Pois a vontade do Meu Pai é que todos os que vêem o Filho e crêem nEle tenham a vida eterna; e no último dia Eu os ressuscitarei’ (João 6:39). No último dia deste mundo, Cristo ressuscitará aqueles que aceitaram Seu convite para uma relação de amizade e companheirismo, e desenvolveram uma fé genuína. Por isso, para aqueles que ‘morrem no Senhor’ (Apocalipse 14:13), o fim é apenas o começo; o começo de uma nova vida que terá início na segunda vinda de Cristo.”

Bem, creio que agora, conhecendo o que a Bíblia ensina a respeito do estado do ser humano na morte, podemos analisar as passagens que você mencionou. Com relação ao texto de Jó 1:21, note o que diz o Comentário Bíblico Adventista, vol. 3, pág. 501 (em espanhol): “Isto não se deve tomar de forma literal. É verso e não prosa. É tão-somente uma maneira poética de dizer que o homem deixa este mundo tão nu e indefeso como quando veio a ele. Aqui Jó não fala em linguagem específica da teologia, da metafísica ou da fisiologia.” E o próprio livro de Jó nos dá essa certeza, ao dizer que “tal como a nuvem que se desfaz e passa, aquele que desce à sepultura jamais tornará a subir. Nunca mais tornará à sua casa, nem o lugar onde habita o conhecerá jamais” (7:9 e 10); “o homem, porém, morre e fica prostrado; expira o homem e onde está? Como as águas do lago se evaporam, e o rio se esgota e seca, assim o homem se deita e não se levanta; enquanto existirem os céus, não acordará, nem será despertado do seu sono” (14:10-12).

Lembremos que II Pedro 3:7 afirma que “os céus que agora existem e a terra, pela mesma palavra, têm sido entesourados para fogo, estando reservados para o Dia do Juízo e destruição dos homens ímpios”. Quando estes céus passarem, por ocasião da volta de Cristo, os fiéis ressuscitarão.

A suprema esperança de Jó está expressa nas palavras: “Eu sei que meu Redentor vive e por fim Se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-Lo-ei por mim mesmo, os meus olhos O verão” (19:25-27). Aqui não há nenhuma indicação de um “espírito ou alma imaterial”, mas sim da ressurreição da carne.

O outro texto – João 9:2 – se refere à cura do cego de nascença. Ao vê-lo, os discípulos perguntaram quem havia pecado, ele ou seus pais, para ter nascido cego. Quando se conhece a cultura e as crenças da época dos apóstolos, tudo fica mais claro. De acordo com o Talmude, “não há morte sem pecado, e não há sofrimento sem iniqüidade” (Shabbath, 55a); e “um enfermo não sara de sua enfermidade até que não lhe tenham sido perdoados todos os seus pecados” (Nedarim 41a). Os judeus acreditavam que cada pecado acarretava seu castigo peculiar e criam que era possível determinar – pelo menos em certos casos – a culpa de um homem pela natureza de seus sofrimentos.

Se o homem mencionado em João 9 estava cego como resultado de seus próprios pecados, então devia haver pecado antes de nascer, já que sua cegueira era de nascença. Há uns poucos indícios na literatura rabínica que mostram que os judeus consideravam que ao menos havia a possibilidade de que uma criança pecasse antes de nascer. Por exemplo, o Midrash Rabbah, comentando Gênesis 25:22, sustenta que Esaú cometeu pecado tanto antes de nascer como no momento de nascer. A opinião predominante entre os judeus era de que uma criança podia ser culpada de má conduta antes de seu nascimento!

Sem dúvida, os discípulos haviam ouvido os sutis argumentos dos rabinos com relação a esta difícil questão, e estavam ansiosos por ouvir o que Jesus tinha a dizer a respeito do assunto.

“Seus pais.” Esta parte da pergunta dos discípulos tinha pelo menos certa base bíblica, pois a lei declara que o Senhor castiga “a maldade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração” dos que aborrecem a Deus (Êxo. 20:5). Freqüentemente, os filhos sofrem as conseqüências das iniqüidades de seus pais, porém não são castigados pelas culpas deles (veja Eze. 18:1 e 2).

Alguns rabinos ensinavam que a epilepsia, a mudez e a surdez, por exemplo, eram o resultado da transgressão das mais triviais regras tradicionais (ver Talmude Pesahim 112b; Gittin 70a; Nedarim 20a, 20b).

Haviam recebido de Satanás sua filosofia com respeito ao sofrimento, pois o “autor do pecado e de todos os seus resultados havia induzido os homens a considerar a enfermidade e a morte como procedentes de Deus, como um castigo arbitrariamente infligido por causa do pecado” (O Desejado de Todas as Nações, pág. 436). Não haviam entendido a lição do livro de Jó que mostra que “o sofrimento é infligido por Satanás, mas que Deus predomina sobre ele com propósitos de misericórdia” (Ibidem).

Ao Jesus responder que nem os pais do cego nem ele mesmo haviam pecado, foi totalmente de encontro ao conceito popular mantido pelos judeus de então.

(Michelson Borges, jornalista e mestre em Teologia)

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